Da escola pública ao Direito na USP: a primeira presidente negra de uns dos Centros Acadêmicos mais


Fonte: Leticia Mori, da BBC Brasil


Quando a estudante Letícia Chagas entrou na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), no ano passado, reparou que o Centro Acadêmico da faculdade era presidido por um homem branco. "Foi impactante para mim ver que, mesmo sendo uma chapa de esquerda, o presidente era como todos os homens que estavam ali, igualzinho. Para ele aquele espaço já estava dado", diz ela, hoje com 19 anos.


O Centro Acadêmico Ruy Barbosa, da Faculdade de Direito da UFBA (Universidade Federal da Bahia), foi fundado em novembro de 1897 e é um dos mais importantes do Brasil. Em seus 116 anos de história, teve entre membros diversas personalidades que depois se tornaram nomes conhecidos, como os ex-presidentes Michel Temer e Jânio Quadros, e os ex-ministros Aloysio Nunes e Fernando Haddad.


O primeiro presidente negro da entidade foi Oscarlino Marçal, em 1963. Mas até hoje o Onze nunca tinha tido uma presidente negra. Em seu segundo ano na faculdade, Letícia quebrou a barreira racial e de gênero e se elegeu como a primeira. "O grande momento vai ser quando os calouros chegarem, porque foi um momento importante para mim", afirma ela, que diz ser importante os recém-chegados verem que uma mulher negra pode estar em uma posição de destaque.


A turma de Letícia é a mais diversa da história da faculdade: 2018 foi primeiro ano em que as cotas raciais passaram a valer no vestibular da USP, que foi a última universidade pública de São Paulo a adotar a reserva de vagas. No entanto, embora o número de negros e pardos tenha aumentado, a universidade continua sendo majoritamente composta de alunos brancos, segundo dados da pró-reitoria de Graduação. "A questão da representatividade vinha sendo deixada de lado nos últimos anos, embora fossem grupos de esquerda que estivessem no controle do Onze", diz Letícia.


Letícia participou da criação de uma chapa de oposição de esquerda, o coletivo Travessia, onde a maioria dos alunos é negra ou parda e estudou em escola pública. O grupo é ligado ao PSOL e ao PCB, mas Letícia não é filiada a nenhum partido. Apesar de tudo, a jovem, envolvida com o movimento negro desde o ensino médio, teve dúvidas sobre se iria concorrer a presidente ou não. "Meu maior sonho é me tornar acadêmica, e eu tinha medo de que a atuação política pudesse comprometer meus estudos", diz ela. "Hoje, qual é o estereótipo do aluno militante que a gente tem? É aquele que só se dedica à vida do partido, que não participa da faculdade em si", conta ela. "Fiquei com receio porque quero fazer mudanças reais na faculdade, mas também quero me tornar acadêmica, lecionar."


Além de cursar as aulas normais e disciplinas optativas, Letícia faz parte de dois grupos de pesquisa acadêmica, um na USP e um na FGV (Fundação Getúlio Vargas), o SBDP (Sociedade Brasileira de Direito Público), que tem um rigoroso processo seletivo.Nascida em uma família de classe média baixa de Campinas, no interior de São Paulo, ela sempre estudou em escola pública e seus pais não têm ensino superior. O pai é caminhoneiro aposentado e a mãe, empregada doméstica.


"Eu nunca senti vergonha [das origens], até porque a maioria dos meus amigos é assim", diz ela. "Mas tem coisas que são difíceis, [os outros alunos] têm um capital cultural muito maior. Já fizeram muitas viagens, já entram sabendo inglês e alemão", conta. "Eu sei que tenho muitas coisas que eles não têm, mas infelizmente [línguas e viagens] são coisas que a academia valoriza."


Início no movimento negro

Filha de pai negro e mãe branca, hoje Letícia exibe orgulhosa um cabelo black power. Mas nem sempre foi assim — quando era pequena, odiava o próprio cabelo e dizia que queria ter nascido com o cabelo liso. "Essas falas eram uma violência, não só comigo mesma, mas com o meu pai, embora ele não percebesse", diz ela.


Ela conta que foi através da transição capilar (processo de deixar o cabelo voltar ao natural) que conheceu o movimento negro e passou a ter mais consciência sobre questões raciais.

"O processo não começou como uma coisa política. Meus pais gastavam um dinheiro que não tinham para alisar meu cabelo. Eu ficava alguns meses sem fazer e ele ficava horrível, eu não estava feliz com ele", conta. Ela tentou duas vezes fazer a transição, e só deu certo na segunda. Foi aí que, lendo sobre transição capilar, começou a pesquisar e entender questões raciais.

"Não que eu ache que todo mundo tem que usar o cabelo natural, pelo contrário, cada um usa como quiser. Mas para mim foi muito importante", diz ela. No entanto, apesar de atuar muito na questão racial, diz que a forma como muitas pessoas querem reduzi-la somente a isso incomoda. "As pessoas estão sempre esperando que eu estude só isso, mas eu não sou só isso, embora seja uma luta essencial para mim."


No grupo de estudos da FGV, Letícia estuda sobre cobrança de mensalidade na universidade pública com base em dados do Tribunal de Contas da União. "Foi um esforço que eu fiz, porque eu preciso descobrir outras coisas além da raça. Não querem que eu descubra, querem que pesquise só aquilo."


Movimento estudantil

Foi no ensino fundamental que ela começou também a atuar no movimento estudantil — com o apoio da irmã mais velha, que tinha cursado a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). "Quando acontecia algo errado na escola, ela sempre me dizia: 'vai lá, tem que reclamar, tem que cobrar que melhore'", conta.