' A escravidão e suas consequências ainda estão no DNA do Brasil'

Laurentino Gomes lança 'Escravidão - Volume 1' primeira parte de uma trilogia dedicada ao tráfico negreiro.


Fonte: G1 Rio, Carlos Brito




As ondas de preconceito, dor e racismo provocadas pela chegada dos navios negreiros, que durante mais de três séculos trouxeram cerca de cinco milhões de escravos da África até o Brasil, ainda batem com força e geram efeitos devastadores na sociedade – desigualdade e segregação estão entre os mais visíveis, mas não são os únicos.

O escritor e jornalista Laurentino Gomes faz essas afirmações com a segurança de quem, nos últimos seis anos, dedicou quase que todo o tempo ao estudo aprofundado da captura, encarceramento e transporte forçado de cativos africanos durante os anos do Brasil Colônia.

O resultado do trabalho foi lançado na Bienal do Rio – "Escravidão - Volume 1" é a primeira parte de uma trilogia que será concluída nos próximos dois anos e que pretende contar a trajetória do tráfico de 5 milhões de escravos trazidos para o Brasil ao longo de três séculos de meio de tráfico.

A necessidade de construir um histórico da escravidão em território nacional nasceu durante a escrita de suas obras anteriores – os sucessos editoriais 1808, 1882 e 1889.

"Ali, tentei explicar o surgimento do Brasil enquanto nação independente a partir da chegada da família real – como a nação se organizou em termos legais e administrativos tendo como parãmetro o modelo português. Aos poucos, porém, percebi que, por baixo disso, no alicerce de tudo, havia algo mais importante: a escravidão. Tanto que, se você olhar com atenção, vai ver que os três livros já têm capítulos que tratam desse tema. Ficou claro para mim que, para compreender o Brasil de verdade, precisava mergulhar fundo no tráfico de escravos entre a África e o nosso país".


A jornada para a concepção da obra começou com a leitura de 200 livros sobre o tema. Logo em seguida, o escritor saiu em campo: visitou várias bibliotecas nos Estados Unidos onde, segundo ele, há material vasto sobre a escravidão no Brasil e conheceu as fazendas do interior americano, locais onde ocorreram processos de escravidão semelhantes aos implantados no Brasil.


Logo em seguida, mudou-se para Portugal por seis meses – de lá, fez viagens a oito países africanos, de onde saíam os navios que levavam os escravos até o Brasil.

Seguiram-se viagens a Angola e Congo – de onde vieram 70% dos escravos trazidos ao Brasil – e ao Golfo de Benin e Moçambique, último território fornecedor de mão de obra cativa.

14 cadáveres por dia

Neste primeiro volume, o escritor aborda desde o primeiro leilão de negros cativos, em agosto de 1444, ainda antes do descobrimento, até a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.


A descrição dos movimentos iniciais daquilo que, mais tarde, seria conhecido como tráfico negreiro é um dos pontos que mais chama atenção no texto. Muito por conta da brutalidade a qual os negros escravizados eram submetidos ainda no processo de transporte entre a África e o Brasil.

"As condições dos navios eram as piores que podemos imaginar. Pelo menos 1,8 milhão de pessoas morreram na travessia do Atlântico. Se dividirmos a quantidade de mortos no transporte pelo número de dias de escravidão vigente naquele período, chegaremos a um resultado assustador: pelo menos 14 escravos morriam por dia – todos eram arremessados ao mar. É uma situação tão terrível que relatos da época dão conta que isso mudou o comportamento dos cardumes de tubarões - todos passaram a seguir os navios negreiros à espera de alimento fácil. Ou seja, a dor e o sofrimento provocados pela escravidão começavam bem antes da chegada ao Brasil".

O Brasil foi o maior território escravista do continente americano. Além disso, foi o último a abolir o tráfico negreiro – por meio da lei Eusébio de Queiroz, de 1850 – e o último a pôr fim à escravidão, em 1888, 15 anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba.

A busca por escravos nasceu a partir da necessidade dos portugueses de conseguir a mão de obra necessária para a produção de bens como o açúcar - antes da escravidão, um bem caríssimo e inacessível à maioria das pessoas na Europa.

Essa situação começou a mudar com a chegada dos portugueses no Brasil. A criação de grandes plantações de açúcar, mas também de tabaco, algodão e café levaram os colonizadores a buscarem mão de obra em grande quantidade.

Em um primeiro momento, os portugueses tentam escravizar os índios – estratégia que, desde o início, não deu certo. Primeiro porque milhares de indígenas sucumbiram às doenças trazidas pelo próprio colonizador – entre elas, gripe, malária e varíola. Além disso, não havia no Brasil um mercado estabelecido de mão de obra escrava no Brasil.

Fases de captura

Foi nesse instante que os portugueses começaram a olhar em direção à África.

Na África, a captura de escravos se deu em três fases: na primeira, em meados do século 15, os próprios portugueses sequestravam negros na costa da Mauritânia e do Senegal.

No entanto, em pouco tempo, perceberam que estavam em ambiente hostil – muitos africanos resistiam e matavam o invasor, por meio da utilização de flechas, dardos e lanças.

Em um segundo momento, os portugueses criaram alianças com tribos locais para levar inimigos de outras tribos que haviam sido capturados. Estes eram trocados por ouro em Gana.

"E há a terceira fase, a mais extensa e significativa para a nossa história, quando se estabelece um acordo entre os invasores e as elites militares africanas. Estimuladas pelos portugueses, estas promoviam guerras contra tribos rivais. Todos os inimigos capturados eram vendidos como escravos que acabavam no Brasil".


Consequências

De forma oficial, a escravidão no Brasil chegou ao fim no dia 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.

Na prática, porém, seus efeitos ainda permanecem.